Depoimento de Nathalia: Parto Natural Hospitalar

O nascimento de Alice


O resultado positivo no exame de gravidez foi uma surpresa, mas logo assim que aqueles dois traços apareceram no teste de farmácia uma coisa era bastante clara na minha cabeça: o parto. Sempre encarei o parto normal como uma coisa bastante simples e natural. Se eu já tinha essa percepção antes de engravidar, a certeza ficou ainda mais forte depois de passar os nove meses pesquisando tudo sobre o universo da gravidez, do parto e da maternidade.
E foi exatamente todas essas horas gastas em pesquisas que me fizeram estar extremamente tranquila durante toda a gravidez e principalmente durante o parto. Depois de descobrir as poucas opções de hospitais que o plano me dava na Grande Vitória, decidi ter minha filha em Cachoeiro, onde minha família e a família de Luiz estariam por perto.
Foi aí que a Mel entrou no meu caminho através do grupo Zalikas e me acompanhou durante toda a gravidez, me enchendo de informação e me deixando ainda mais tranquila para quando chegasse o momento de Alice vir ao mundo. Apesar de já estar prestes a completar 39 semanas e já estar sendo bombardeada por dezenas de perguntas diárias de “essa menina não vai nascer não?”, eu estava conseguindo ignorar a ansiedade geral e me manter calma.
No dia 29 de maio, fui dormir por volta de meia noite e meia e acordei logo depois, às 1:40, sentindo meu short molhar. Troquei de roupa e voltei a deitar para esperar possíveis novos indícios de que eu realmente estava em trabalho de parto. Eles não demoraram a aparecer: 15 minutos depois eu já estava com contrações bem fortes, de 5 em 5 minutos. Eu sabia que eram contrações, mas imaginei que ainda fosse demorar para que ficassem fortes e ritmadas (mal sabia eu que elas já estavam fortes e ritmadas!). Por isso, decidi esperar um pouco, continuar contando o intervalo das contrações e não chamar meus pais e a Mel. Fiquei cerca de quarenta minutos monitorando, conversei com amigas no whatsapp e postei no Zalikas.
Meia hora depois as dores já estavam muito fortes e nada fazia com que as contrações diminuíssem. Eu tentava ficar deitada, sentada, em pé, andava pela casa toda e as dores só pioravam. Foi quando liguei para a Mel e acordei minha mãe. Mel pediu que eu tomasse um banho bem quente e que monitorasse as contrações por mais 40 minutos. E foi o que eu fiz (ou tentei fazer), só que antes de completar os 40 minutos liguei novamente para a Mel e disse que não estava mais aguentando as dores e que achava que estava chegando a hora. Nesse momento também liguei pra Luiz, que continuava em Vitória, e pedi que viesse para Cachoeiro.
Logo depois, Mel e Eluzia (EO) chegaram na minha casa. Nesse momento eu já tinha perdido um pouco a noção de tempo e já andava como louca pela casa com muitas dores. As duas chegaram durante uma contração e Mel já começou a me fazer massagem nas costas que aliviou muito minha dor. Assim que a contração passou, nós fomos para o quarto para que Eluzia fizesse o exame do toque para conferir a dilatação.
Enquanto eu torcia pra Eluzia dizer que eu estava com pelo menos 4 centímetros, veio a surpresa: ela nos olhou com cara de espanto e disse que eu estava com 8 centímetros de dilatação. Por um lado fiquei extremamente feliz por já ter passado pela maior parte, por outro, fiquei preocupada, com medo de não dar tempo de chegar no hospital (mal sabia que eu ainda teria que aguentar algumas horas de expulsivo).
Pegamos as bolsas correndo e seguimos para o hospital. À essa altura eu já não estava raciocinando devido às dores. Não lembro bem do caminho de casa até o hospital, nem de como cheguei até a sala de pré-parto. Quando já estávamos lá, lembro de uma funcionária do hospital ter feito mil perguntas e do meu esforço em ter que lembrar, em meio à fortes contrações, de coisas como o endereço da casa dos meus pais (de onde eu me mudei há mais de 7 anos).
As contrações ficavam cada vez mais fortes, mas não demorou para que fizessem um novo exame do toque e constatassem: eu estava com dilatação total. Depois disso as contrações não eram tão doloridas, mas eu sofria cada vez mais com dores no nervo do quadril. Acredito que a tendinite que eu já tinha antes da gravidez tenha feito com que eu sofresse mais do que o normal com isso. Por causa dessas dores eu não aguentava ficar deitada e tentava todas as outras posições para encontrar a que fosse mais confortável. Apesar da dilatação ter sido rápida, a fase dos puxos demorou muito. Eu não sentia tanta dor como antes e sim vontade de fazer força e cada vez mais cansaço.
Depois de muito tempo (a noção de tempo já tinha ido embora nesse momento) eu já estava exausta e falei com a Mel que não aguentava mais. O tal “momento da covardia” chegou com tudo e eu realmente aceitaria qualquer coisa para que aquilo acabasse logo. O médico de plantão, que se esforçava para dar conta de tantas cesárias que apareciam no tempo em que meu trabalho de parto desenvolvia, foi ver como estava o andamento do parto e negou a ocitocina sintética, que faria com que minhas dores ficassem mais fortes, mas em compensação faria com que Alice nascesse mais rápido. Eu não me lembro bem da minha reação quando ele disse que eu não precisava de ocitocina sintética, mas imagino que não tenha sido das mais simpáticas.
Apesar de ainda estar conseguindo manter a calma, o sentimento de desânimo já tomava conta de mim. Eu começava a acreditar que não seria capaz de fazer com que minha filha nascesse. Mas o nosso corpo é tão perfeito que quando minhas forças já estavam acabando e quando eu menos esperava, eu senti uma grande vontade de fazer força e ouvi a frase que eu mais aguardava. “Nasceu, Nathalia. Faz só mais uma força”. Nesse momento eu lembrei do último vídeo que assisti quando ainda estava grávida. Nele, uma mãe teve sua filha em casa, dentro da piscina, e durante o expulsivo, ela sentiu uma contração em que saiu a cabeça da neném e esperou calmamente, com sua filha debaixo d’água, até sentir a próxima contração e fazer força novamente. E foi o que aconteceu comigo.
Enquanto a enfermeira obstetra me pedia para fazer força para que o corpo de Alice nascesse, eu lembrei do vídeo e falei com a Mel. “Mel, eu não estou sentindo contração. Vou esperar a próxima”. E ela concordou. Logo em seguida senti meu último puxo e Alice nasceu: linda, bochechuda e muito maior do que todos imaginavam com 3,690 kg e 51 centímetros, de parto natural hospitalar. Assim que ela nasceu e eu me virei para pegá-la pela primeira vez, várias enfermeiras já se aproximavam pra assistir o final do que, pela expressão delas, parecia ser algo bastante fora do comum. Como eu tanto ouvi nos corredores daquele hospital, “a menina do particular tinha escolhido passar por um parto normal”.
No momento em que Alice foi para o meu colo eu estava exausta, mas cansaço nenhum neste mundo foi capaz de diminuir esse instante. Foi o momento em que nos conhecemos. Enquanto Alice sentia meu cheiro, eu olhei cada partezinha do corpo dela.
Desde o dia do nascimento de Alice, o que eu mais escuto são pessoas querendo saber como são as dores de um parto normal e me dando os parabéns por ter sido “tão” corajosa. Para responder à primeira pergunta eu sinto uma enorme dificuldade. Dor? Quando lembro de todo o trabalho de parto e da enorme quantidade de emoções que me atingiram naquelas horas, a última coisa que consigo lembrar é da dor. E quanto aos parabéns, eu só consigo pensar que não mereço parabéns algum. Eu não fiz nada que qualquer mulher seja capaz de fazer, que minha avó fez dez vezes e que provavelmente a sua avó também.
Apesar de ser tão natural, assim como deveria ser encarada, é impossível não levar em consideração a dificuldade encontrada por todas as mulheres hoje que buscam um parto normal devido a vários fatores. Por isso, eu jamais teria conseguido um nascimento tão lindo e digno para minha filha sozinha. Obrigada Mel por todas as conversas, inúmeras informações, massagens milagrosas durante o parto e palavras carinhosas. Eu definitivamente não teria conseguido sem você. Obrigada aos meus pais, por terem acreditado na minha escolha e depositado toda confiança em mim durante esse processo. Eu sei que também teria sido muito mais fácil para vocês se eu tivesse ido com a maioria e tivesse feito uma cesária, então, MUITO obrigada. Vocês são incríveis e eu sempre vou me espelhar em vocês para criar minha filha. Obrigada aos meus sogros por terem respeitado a minha escolha até o final. Obrigada Eluzia, que manteve sua voz firme durante todo o parto. Eu precisei muito dela naquele momento. E, acima de tudo, obrigada, Luiz. Nenhuma palavra que eu escolha será suficiente para agradecer todo o seu companheirismo durante toda a gravidez. Eu já sabia que não poderia ter escolhido uma pessoa melhor pra dividir a minha vida. Agora eu não me canso de dizer que não poderia ter escolhido um pai melhor para nossa filha. Eu e Alice somos as mais sortudas desse mundo todo.
E obrigada, filha, por ter feito a sua parte nesse processo tão lindo. Você veio para trazer muito mais sentido à minha vida e me transformar na mãe mais cheia de clichês do mundo.

NATHALIA POMPERMAIER  
Jornalista, companheira do Luiz, mãe da Alice e mulher empoderada

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